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Quando o passado não passa
O tempo passou depressa demais, mas a lembrança ainda
é clara, presente e bem viva. Aquela rotina era religiosamente
repetida, principalmente no horário do meio-dia, quando
a mãe preparava a “bóia” e separava
uma vianda, amarrava um pano de prato para garantir a segurança
e facilitar a viagem de seu piá, que se apresentava com
um calçãozinho surrado e chinelinho de dedo velho
com um preguinho segurando desbotadas tiras.
A caminhada era longa e cansativa, mas acima de tudo era gratificante
e sempre alegre, na companhia de muitos pássaros, cigarras
e borboletas. Às vezes uma carona de carroça,
ônibus para aquelas bandas era muito difícil, mas
o guri não se importava, seguia adiante como podia. O
que animava era o cheiro dos eucaliptos que pairava no ar, naquela
longa estrada de poeira e chão batido.
Chegando no destino, o aguardava um homem cansado, mas receptivo,
de olhar castanho que brilhava quando avistava seu pequeno rebento
chegar. Aquele trabalhador aparentava muito mais que seus trinta
e poucos anos. Sentado em uma pedra abatia faminto a comida
simples que o piá trouxera. O hombre mal terminava de
comer, entre tosses e gemidos empunhava a marreta e seguia seu
ofício na pedreira, lomba do Zequinha.
Os anos passaram, e aquele menino cresceu, por circunstâncias
do destino, não mora mais naquele lugar, hoje homem feito,
também é pai, e de vez em quando lhe vem a lembrança
daquele tempo, e ensaia discursos, milongas e poemas para apresentar
ao seu filho e falar de suas origens, dificuldades, sua infância,
humilde e feliz.
Pensativo recua nos seus devaneios, e se amedronta com tudo
a sua volta, no rádio tchutchucas, eguinhas, crianças
com máscaras de super-heróis, lan houses lotadas,
tênis então que só faltam falar, celulares
de último tipo, roupas rasgadas... é demais, demais...
Sentado, se agarra ao violão. Olhar sutil, observa o
piá se aproximar se aproximando, vem com um sorriso largo,
e diz: papai toca aquela musica do vô?! O homem emocionado,
não consegue segurar uma lágrima e começa
então a cantar.
“Itapuã, Itapuã. Passado bom de lembrar:
das pescarias, da praia das Pombas, de curvas e lombas, do meio
sabiá. Vivo cantando, esperando de frente a morte, quero
ter a mesma sorte de no teu chão repousar, ouvir canário,
João de barro e quero-quero deitar ao lado do meu velho
que ai descansa em paz”.
Abraçados, não seguram a emoção,
pensamentos misturam saudades e sonhos, e assim ficaram... por
um longo tempo.
Ao lado, em uma cadeira preguiçosa, um livro com páginas
arredias, estampava na capa: “quando o passado não
passa”.
Que saudade meu velho!!! Que saudade!!!
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